Relações afetivas “faz de conta”

Lidar com emoções reais parece ser um problema para nós. Dessa forma, há uma tendência para nos escondermos atrás de máscaras e de personagens, a fim de que as nossas emoções reais não sejam conhecidas pelo outro. E o recíproco também é verdadeiro: preferimos lidar com pessoas que se comportem da mesma maneira, num jogo superficial, uma vez que construir uma relação verdadeira com o outro traz riscos que nem sempre estamos dispostos a correr.

As redes sociais virtuais potencializaram essas pseudo-relações que possuímos. Na rede, as pessoas estão quase sempre alegres e felizes, entusiasmadas com a vida e cheias de boa disposição. Por trás das telas, no entanto, escondem os seus medos, as suas dores, as suas angústias e a sua solidão, com o desejo de se manterem interessantes perante os olhares virtuais dos outros. Criam-se, assim, verdadeiras ilhas afetivas e pessoas incapazes de lidar com as frustrações que os relacionamentos podem implicar.

Criamos relações fictícias com um sem número de pessoas, as quais, de um modo geral, mostram-se quase sempre felizes e entusiasmadas com projetos, com a vida, e nós, pela nossa parte, também correspondemos do mesmo modo, mostrando boa disposição, o que faz com que a relação até seja atraente. Este tipo de relações não acarreta problemas ou dores de cabeça e, pode ser um sucedâneo razoável para quem não tem ou não quer ter outro tipo de relacionamentos.

O grande problema é que relacionar-se com outra pessoa vai muito além de sorrisos e de troca de experiências interessantes e de momentos “bons”, porque as relações construídas sob o pilar da facilidade tendem, quase sempre, a não terem continuidade e a deixar o indivíduo ainda mais solitário, às vezes envolto num mundo de fantasias, e cada vez mais incapaz de lidar com emoções reais.

A única forma de construir uma relação verdadeira é estar disposto a lidar com emoções e sentimentos que formam o outro na sua natureza integral, isto é, as suas alegrias, os seus sonhos, as suas conquistas, assim como as suas dores, os seus medos e as suas derrotas. Só quando for capaz de sentir o outro naquilo que ele possui de mais vivo (e ninguém é formado só de alegrias), é que pode haver uma real sintonia geradora de crescimentos comuns.

Ter uma relação em que o outro diz-me sempre o que eu quero ouvir, em que está sempre disponível e contente para mim e parece não ter problemas pessoais, demonstra, apenas um profundo egoísmo de alguém que se preocupa apenas em “receber” algo de uma relação. Numa relação autêntica eu estou disposto a doar-me ao outro nas suas alegrias, para que se possa rir junto, como nas suas tristezas, para que se possa consolar, dar um abraço, uma palavra amiga e um beijo sincero. Devo, também, entender que o outro tem a sua personalidade e, portanto, terá um olhar próprio sobre a vida, o qual nem sempre corresponderá ao meu.

Desse modo, qualquer relação requer paciência e esforço mútuos. Isolar-se atrás de um ecrã só garante mais isolamento, solidão e tristeza. É preciso estar disposto a viver emoções reais, com pessoas reais, que riem, mas também choram, para que se possa crescer e aprender a lidar com os próprios sentimentos. É claro que sempre haverá o risco de alguém sair magoado ou de se dececionar, pois as pessoas não são “bonecas” nem vêm com garantia de uso.

O caminho é mesmo esse e é o único. Somente com o tempo vamos amadurecendo e aprendendo com os erros. Vamos descobrindo mais sobre nós mesmos e sobre a vida. E, para isso, é preciso viver, arriscar e aceitar as quedas que a vida dá. As relações virtuais podem até ser “bonitas”, mas nada substitui um sentimento sincero, pois, como diz Clarice Lispector:

“O bonito encanta-me, mas o sincero, ah! Esse fascina-me.”

Texto de E. Morais  (adaptado)